O tempo,

esse factor incontornável nas nossas vidas, molda-nos irremediavelmente. É no tempo que se constróem as amizades e é no tempo que se perdem.
Os amigos que fizémos em determinados momentos das nossas vidas podem ou não acompanhar-nos no resto do trajecto. Há os amigos que nos sabem respeitar, apesar das diferenças, que nos aceitam como somos. Há os que nos olham com atitude paternalista, desculpando-nos, com os seus próprios argumentos, os sonhos e os ideais. Há os que apostam em nós, naquilo que acabaremos por concretizar. Há os que acreditam que este amor que vivemos hoje é o maior de sempre, assim como a subsequente desilusão, e nessa medida nos apoiam.
É o tempo que se encarrega de os arrumar, na pirâmide de afectos que nos serve de base. É o tempo que vence os menos convictos. É o tempo que fortalece laços, que aperta nós, avaliando-nos perante situações de extremos. Tenho a sorte de ter bons amigos. Muito poucos, mas muito bons. Tenho a sorte de ter percebido quem pertencia a que degrau. Tenho a sorte de ter sempre espaço para mais alguém porque estes se ajeitam entre si. Tenho a sorte de encontrar nesses amigos um certo nível de incondicionalidade, de entrega, de desinteresse que me compensa de todas as perdas ou desilusões anteriores.
A esses amigos, que conhecem o meu riso e o meu choro, cuja empatia não falha, que me desculpam as falhas, que me valorizam os feitos, que me defendem ainda que eu não precise, que percebem nos meus silêncios os medos e as dúvidas que me assolam; a esses amigos que estarão sempre por mim, como sempre estiveram, eu ergo hoje —porque todos os dias são dias de sol e de rir e porque hoje há parabéns a distribuír— o meu copo, em silêncio, porque as melhores palavras não se dizem aqui.