Quem?

Sim, quem é que se lembra disto? Das vozes graves do João Paulo Guerra, do Nuno Gomes dos Santos, do José Jorge Letria? Da história de um homem que foi todos os homens, povo, ganga e trigo da revolução, bigorna e arado, sentinela e soldado de um combate sem quartel, que lança raízes de ficar para o que der e vier.
Zé Ferrugem é o homem que, depois de vender a sua juventude em trabalhos precários e a patrões exploradores, apresentou a guia de marcha no quartel, recebeu uma farda feita às 3 pancadas e foi treinado para matar e morrer sem saber porquê, recruta apressado, continência e G3, "Prepara-te Zé Ferrugem, que vais para África defender a integridade nacional", é o homem que só lá percebeu que não era no mato, entre o capim, que encontraria o seu verdadeiro inimigo.
"Não me voltarei a vender. Cruzar os braços é que não. Um homem não pode acabar assim." Cigarro atrás de cigarro, não sabe onde se há-de encontrar, já não vê com o mesmo olhar o país para onde voltou.
Até que o povo saíu à rua entoando os hinos da libertação e Zé Ferrugem perdeu-se na multidão, percorreu avenidas e vielas, participou no coro imenso do povo libertado, os seus braços com outros ergueram uma muralha que fez fugir o capital, de malas aviadas. Percebeu que quando um homem luta só, dá um ponto sem dar nó e não chega ao fim da estrada.
Abril foi então nome de mulher, de defender o futuro a dois. Eu operário desta terra em sobressalto, tu companheira anunciando a primavera, já não sei onde foi que nos amámos quando Abril ainda vinha distante, só me lembro de ver-te, minha amiga e de sentirmos esta fúria de ir avante, mas foi abril e olhar-te num instante, e tocar-te como quem molda o barro, e então esta casa, este riso, este lume são tudo o que sabemos, o que somos, com uma certeza maior do que é costume.
Mas contra a certeza de vencer, vieram "à socapa as hienas, os abutres" e em Setembro e Março Zé Ferrugem teve de gritar nas ruas "abaixo a reacção". Chegou o jogo sujo dos dólares e dos boatos, apesar da vigilância, a reacção anda por cá com carta branca e alvará e cantava-se que a verdade venceria.
Difíceis os caminhos da revolução.

CANÇÃO DO FUTURO
O muito que conquistámos
à força de estarmos juntos
chega e sobra p'ra tratarmos
dos nossos próprios assuntos
o caminho percorrido
é de esforço e de mudança
mais o laço e a primavera
de que é feita a nossa esperança
dia a dia nós erguemos
o amanhã que há-de vir
com searas, oficinas
e crianças a sorrir
de pé ficará quem sabe
o que vale estar presente
nos lugares onde se joga
o futuro da nossa gente
Tudo aquilo que aprendemos
à força de aqui ficar
sabe a trigo, a fruta nova
e a mãos cheias de luar
e por isso nós dizemos
a quem nos quiser ouvir
que o futuro é este modo
de lutar e resistir
Um futuro de aço vivo,
de argamassa e cereal
amanhã de pão e ganga
p'ra quem ergue Portugal
No tempo de um LP é-nos contada com canções e locução a história de Zé Ferrugem, aqui muito resumida. Vale a pena não esquecer.

9 Comments:

Blogger Júlia Coutinho said...

Só hoje descobri este blog e como fiquei feliz com isso !
Lembro-me muito bem do Zé Ferrugem, dos bonecos em O Diário, penso que feitos pelo MART ou José Martins ... que entretanto faleceu.
Bem-Hajas por nos trazeres estas coisas e lembrares que a História é feita por todos e com todas estas pequenas/grandes coisas.
Beijinho

fevereiro 13, 2006 2:44 da tarde  
Anonymous Liberal,Sem Neo said...

Fico curioso, perplexo mesmo, ao deparar-me com textos tão bem escritos, deveras sentidos decerto, mas absolutamente eivados do mais primário neo-estalinismo!

A ilustre escriba terá sido Pioneira?Detentora de uma Ordem de Lenine? Heroina do Trabalho?

Quanto mito vendido pelos ogres que vampirizaram brutalmente milhões de almas crédulas, necessitadas e puras, e lhes venderam um sonho utópico, irrealizável, o qual trocaram logo que possivel pelas mais impiedosas ditaduras....

Porquê louvar um mundo que nada deu de positivo ao Homem?

Porquê insistir nesse malfadado homem novo, que não saiu nem nunca sairá das páginas de doutrina, para alguns barata 8 e para outros demasiado cara, paga em sangue) do "Das Kapital" e das Obras Completas de Vladimir Ilitch Ilianov?

Zé Ferrugem?Talvez Bill Gates:-)

Mal empregado talento em tão desprezivel ideário!

fevereiro 13, 2006 11:12 da tarde  
Blogger HarryHaller said...

Nenhuma ideologia muda o ser humano só por si própria, pois há algo íntrinseco ao mesmo que tem sido superior a qualquer ideologia , o egoísmo humano, e esse existe em todos os homens e mulheres(mais nos homens)independentemente das suas ideologias politicas. A verdadeira revolução não é colectiva é individual, quem quer mudar os outros perde e perde-se(não é mera demagogia, basta estudar a história). Até hoje, ainda não houve uma verdadeira situação social ou económica, que fosse digna do ser humano, mesmo aqueles politicos que diziam que eram pelo bem colectivo, revelaram-se verdeiros tiranos, que não conseguiram lobrigar para além do seu umbigo, escuso-me a citar nomes, pois os mesmos são sobejamente conhecidos.

Um abraço

Lobo das Estepes

fevereiro 14, 2006 10:57 da manhã  
Blogger jctp said...

Mas o que é que significa dizer que nenhuma ideologia muda o ser humano só por si própria, pois há algo intrínseco ao mesmo que tem sido superior a qualquer ideologia, o egoísmo?

Na verdade, parece-me que se pode dizer precisamente o mesmo, sem mudar nem uma vírgula, sobre o altruísmo. Talvez até tal coisa pudesse com mais razão ser dita sobre o altruísmo, porque esse, apesar de todas as ideologias, nomeadamente dessa que hoje nos domina - com ou sem neo, pouco importa são apenas palavras – e que tanto tem feito para tornar o altruísmo um bem escasso e desnecessário, apesar de tudo isso, e para surpresa e espanto nosso, o altruísmo ainda continua por aí e ainda vai dando de quando em vez um sinal da sua graça. Será por ser algo de intrínseco ao ser humano?

Na verdade, parece-me que não deveríamos ir por aí. O homem não é uma página em branco, certamente que não, mas também não é alheio às circunstâncias, nem poderia sê-lo, não só porque tem cérebro e pensa, mas também porque tem estômago e medo.

“A verdadeira revolução não é colectiva, mas individual.” Mas como é que é possível uma coisa sem a outra? Como é que é humanamente possível uma coisa sem a outra? Não estaremos aqui a criar uma falsa dicotomia, absolutamente inútil e irrelevante? Não será esta crítica à ideologia ela própria ideológica?

Ideológica, no sentido marxista da palavra. Afinal o que é que era a ideologia para Marx senão uma falsa representação da realidade. A pack of lies para iludir os eternos enganados. Posto isto, espero que ninguém se lembre de me acusar de marxismo. Não, eu nada tenho que ver com isso. Marxistas serão talvez o liberal sem neo, tão saudavelmente crítico das falsas representações da realidade, ou o lobo das estepes que sabe que as ideologias nada trazem de bom e sempre servem os interesses de quem manda, como tão patente e claro é no caso da ideologia liberal, com ou sem neo, não brinquemos com as palavras.

Eu, pela minha parte, como “velho conservador”, costumo utilizar muitas vezes o termo ideologia num sentido pré-marxista, querendo com isso significar apenas um conjunto de ideias, mais ou menos organizadas, que ajudam a clarificar o mundo, e que, assim sendo, são elas, as ideologias, tão necessárias e inevitáveis, como o ar que respiramos.

Nota: Nos tempos que correm é quase tão fácil ser liberal sem neo como ser estalinista com neo. Além de que, facto de crucial importância, o suposto neo-estalinismo da “ilustre escriba”, é-lhe atribuído e o suposto não neo-liberalismo do comentador é-lhe auto atribuído pelo próprio, ora como é bom de ver não se deve julgar um individuo, qualquer que ele seja, apenas pela imagem que ele faz sobre si mesmo, devemos até talvez desconfiar da imagem que ele faz sobre si mesmo, pois que - como bem o sabem as almas crédulas, necessitadas e puras - ninguém é bom juiz em causa própria. E temos talvez ainda maiores razões para desconfiar quando a pessoa em causa atribui a outra o seu absoluto contrário. Tu é que és neo! Eu não!

Mas há que reconhecer que a ingratidão histórica também tem a sua beleza. O pós-modernismo, em toda a sua diversidade, aí está para o provar.

E peço desculpa à nossa “ilustre escriba” por este abuso de espaço, absolutamente desnecessário e, no fim de contas, talvez pouco interessante.

E já agora, devo acrescentar, que não me lembro do Zé Ferrugem. Mas gostei de o conhecer, uma vez que não me lembrando dele é como se o não conhecesse e já houve quem defendesse que conhecer nada mais é do que recordar o que nem sabíamos que já sabíamos. A ver agora se não me esqueço, pois me dizem que vale a pena não esquecer.

fevereiro 15, 2006 8:06 da tarde  
Blogger disparosacidentais said...

gostaria apenas de perguntar ao liberal acima se conhece os descendentes das piedosas democracias liberais que tem por modelo? é que pode começar por encontrá-lo em abu gharaib, no norte de áfrica às portas da europa , pelo sudão, ao longo do muro israelita, etc.
"Porquê louvar um mundo que nada deu de positivo ao Homem?", por nada. louvemos então (e em uníssono) o avançado ideário liberalista.

apenas mais um comentário:
harryhaller dispensa-se a citar nomes sobejamente conhecidos mas não devia. ele sabe tal exercício imprudente, e adivinhá-lo-ia (se o tentasse) como um tiro no pé. é que, afinal as revoluções são ou não individuais? talvez o sejam apenas as ditaduras resultantes das revoluções, não as democracias...

fevereiro 16, 2006 3:59 da tarde  
Blogger disparosacidentais said...

gostaria apenas de perguntar ao liberal acima se conhece os descendentes das piedosas democracias liberais que tem por modelo? é que pode começar por encontrá-lo em abu gharaib, no norte de áfrica às portas da europa , pelo sudão, ao longo do muro israelita, etc.
"Porquê louvar um mundo que nada deu de positivo ao Homem?", por nada. louvemos então (e em uníssono) o avançado ideário liberalista.

apenas mais um comentário:
harryhaller dispensa-se a citar nomes sobejamente conhecidos mas não devia. ele sabe tal exercício imprudente, e adivinhá-lo-ia (se o tentasse) como um tiro no pé. é que, afinal as revoluções são ou não individuais? talvez o sejam apenas as ditaduras resultantes das revoluções, não as democracias...

fevereiro 16, 2006 3:59 da tarde  
Blogger caterina said...

E com isto tudo não me dizem se conhecem o Zé Ferrugem, personagem :)Pronto, o Jota disse.

fevereiro 16, 2006 10:58 da tarde  
Blogger disparosacidentais said...

isso torna-se secundário com a tónica colocada nos comentários, não?
(as minhas desculpas pelo comentário anterior em duplicado.)

fevereiro 17, 2006 12:57 da tarde  
Blogger HarryHaller said...

JCP E disparosacidentais

Os meus amigos(as)fazem comentários aos comentários? Esqueceram-se do post!?

PS: Altruismo?Quanto de egoismo não tem o altruismo do mundo!E por aqui me fico, transgredindo o meu princípio de não comentar comentários.

Lobo das Estepes

fevereiro 21, 2006 9:47 da manhã  

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