Porque me perguntam a mim se este autocarro passa por Santa Apolónia se sou a única nesta paragem de autocarro com os headphones nos ouvidos?
Contrariada, desvio um do ouvido e peço que me repitam a pergunta. Repetem, finjo não ter percebido para que fique bem claro que me estão a interromper, que querem?, ao fim de alguns anos a cortesia que os nossos pais nos ensinaram, vai-se esbatendo.
Continuo a ouvir a minha música, ou melhor, já não a ouço, fiquei aborrecida. Nunca tive muito bom acordar. Ultimamente, em boa verdade, não é tanto assim, o sorriso da minha filha pequena que apesar da quase madrugada, acorda já com um sorriso no lindo rosto que tem, sempre me ilumina a manhã. Mas as notícias no jornal acabado de comprar, o telefonema do patrão quando ainda vou no barco, os empurrões, as travagens do motorista do autocarro, a impaciência para com a empregada do café que tarda em atender-me, não me deixam com o melhor dos humores.
Porquê a mim? Tenho, porventura, uma cara simpática? Claro que não, tenho o queixo espetado para a frente em jeito de desafio, a expressão séria e um casaco de cabedal comprido. E ainda não me viram andar, que perguntem ao meu pai, os que não viram ainda, se o meu andar augura alguma coisa de bom.

1 Comments:

Blogger jctp said...

- Olhe, desculpe lá.
- Diga.
- Este autocarro passa por Santa Apolónia, não passa?
- Sim. Passa.
- Obrigadinho, obrigadinho, obrigadinho.

(Intervalo musical)

- Desculpe lá.
- Sim!
- E passa naquela paragem que até fica ao pé do banco?
- Passa, sim. (Em surdina: Sei lá qual é a paragem!)
- Como disse?
- Disse que sim, que passa.
- Obrigadinho, obrigadinho, obrigadinho.

(Intervalo musical)

- Desculpe lá.
- Diga!
- E o autocarro pára lá, não pára? E dá para sair nessa paragem, não dá?
- (em surdina: Até dá para sair pela janela!)
- Disse alguma coisa?
- Não, não disse. E sim, pode sair nessa paragem. (em surdina: Eu até agradeço!)

(Intervalo musical)

- Desculpe lá.
- Mas o que é que foi agora! Já não basta! Não vê que me está a incomodar! Já não há paciência!
- Desculpe lá, podia-me deixar passar que eu quero sair do autocarro!
- Ah, desculpe lá. Faça favor.
- Obrigadinho, obrigadinho, obrigadinho.

*

"…tenho o queixo espetado para a frente em jeito de desafio, a expressão séria e um casaco de cabedal comprido. E ainda não me viram andar, que perguntem ao meu pai, os que não viram ainda, se o meu andar augura alguma coisa de bom."

fevereiro 20, 2006 7:27 da tarde  

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