Há tempos propus-me


escrever sobre a minha família. Tracei um esquema e lancei mãos à obra. Decidi fazê-lo porque tenho a sorte de ter na minha família gente absolutamente distinta. Não falo de alguém que tenha recebido um Nobel, escrito um livro ou mudado o mundo de alguma forma. Mas são todos distintos, cada qual a seu modo. Também quis, com essa tarefa, deixar uma memória clara à minha filha de quem foram as pessoas que viveram até que ela pudesse nascer.
Porém, essa tarefa revelou-se mais árdua do que a imaginei. Não é fácil falar sobre pessoas de quem gostamos e com quem convivemos desde sempre, afastando-nos o suficiente para sermos justos. Uns surgem como absolutamente fantásticos, outros como caricaturas de si mesmos.
Independentemente do cuidado que pus em falar sobre eles e do carinho que pinta os seus carácteres, esta tarefa fez-me pensar na importância da família na formação das pessoas que somos.
A minha família é composta por pessoas humildes, todas provenientes de uma aldeia esquecida na planície alentejana. Por nunca termos tido mais nada, temo-nos uns aos outros, formamos quase um clã. Todas as minhas memórias de infância e da adolescência passam por eles. Existem uma série de private jokes que passam ao lado dos membros mais novos, aqueles que foram entrando por meio do casamento, já na minha geração; existem hábitos imutáveis, conversas sobrepostas, risos descontrolados, lembranças sofridas. Provavelmente tudo aquilo que existe em todas, mas esta é a minha. Evidentemente, a partir de um certo ponto do percurso, a família pesa-nos, de tão presente. Em determinados momentos quase desejamos que nos esqueçam, que nos deixem respirar. Mas voltam as tréguas e não me imaginava sem estas pessoas que são quem eu própria sou.
A vida vivida à pressa, tal como a vivemos agora, afasta-nos uns dos outros. Nós, os mais novos, rendemo-nos às sms, a um encontro breve no shopping da capital. O telefone substituíu as conversas em volta da lareira da casa dos avós, as férias desencontram-se e procuramos outras paragens que não a velha aldeia.
Tenho apenas uma filha e não tenho diponibilidade para que conviva mais com as primas. Lamento-o, mas é a vida que tenho, é a vida que temos. Não é justo para estas crianças serem privadas de um imaginário similar ao nosso, o das suas mães, mas não reunimos condições para viver de outro modo. Substituímos as tertúlias por histórias que vamos contando, emprestando-lhes o cheiro da cal, do lume aceso na cozinha, dos horríveis cigarros do meu avô, do restolho fresco, do queijo curado, da cavalariça atafulhada de memórias, das galinhas que acabaram de pôr ovos.
Perdem-se as vivências mais primárias em nome de um conforto que, afinal, pouco nos conforta.
Mas a velha casa mantém-se na aldeia, guardada pelos seus incansáveis guardiões, velhos avós que já vão esquecendo o dia dos nossos aniversários.
E enquanto essa casa for habitada, sobrevive a melhor parte de nós.

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