Fugir à rotina


não nos acontece tantas vezes quanto seria salutar para a nosa estabilidade mental. Ou, pelo menos, não acontece à maioria de nós.
E bastam fugas pequenas para a realidade ser outra. Tão pequenas como, por motivos que assim o obrigam, chegarmos, um dia, mais tarde ao trabalho.
A diferença, que pode ser de apenas uma hora, começa logo por se notar quando deixamos os pequenos ou, no meu caso, a pequena, no infantário. Deixá-la às 9 é tão diferente de a deixar às 8, que ela própria parece não ficar ressentida com a despedida de "até logo". A essa hora já estão muitos meninos na sala, os seus amigos correm para ela, ela larga a minha mão e vai ao seu encontro, não insiste em levar-me à porta para me ficar a acenar até me perder de vista e até eu, que nem sou para aqui chamada, saio da escola com um semblante mais simpático.
Nos autocarros viajamos com caras novas, e não as de todas as manhãs, pensamos se, como nós, esta hora será uma excepção para os outros passageiros ou se têm a sorte de poderem ir mais tarde, diariamente.
A Sónia, a menina dos jornais, não nos atende com a pressa do costume, ainda que sempre simpática e, a esta hora, é como se ninguém se lembrasse que é segunda-feira.
Os barcos viajam a esta hora com um intervalo de tempo maior, entre si, e temos tempo de olhar o rio enquanto vemos o velho cacilheiro descrever a curva para, na sua elegância, se encostar à margem.
Podemos chegar ao escritório quando já tudo bule e olhá-lo de fora, como se ali não pertencêssemos. E afinal pertencemos mais a esse escritório do que a qualquer outro lugar, dê-se as voltas que se der.
Podemos sonhar com o tal euromilhões que seria uma solução para esta vida aprisionada que levamos. Ou podemos simplesmente aproveitar a hora que roubámos à rotina, a hora que ganhámos ao sono e ao amor dos nossos filhos.
E uma hora, uma simples hora, pode fazer toda a diferença num início de mais uma semana nesta nossa existência por vezes tão fria como os dias.

Lido:


"Os anjos tocam Bach para deus mas entre si tocam Mozart."
Karl Barth

Eu sei que havia uma canção


de há uns 20 anos, cantada por um fulano que no vídeoclip aparecia vestido com uma espécie de túnica branca e que, se não estou a confundir com nenhum clip da Lena d'Água ou dos Salada de Fruta, ele cantava numa espécie de escadas escuras. Acho que ele tocava guitarra.

A letra dizia a certo ponto: “João, mais uma vítima nuclear / uma cara(?) no meio da cidade / onde só se contavam histórias / de felicidade(?)”, ou qualquer coisa muito parecida com isto.

Quem diabo cantava isto?

Quando os dias


não correm de feição, quando não há perspectivas de um futuro sorridente, quando a casa já descansa no silêncio dos sonhos infantis, quando a louça descansa já lavada e as pantufas me aquecem os pés, fecho-me da divisão de eleição cá de casa e respiro mais fundo.
Aqui está uma parte do meu relicário, da caixinha de memórias vitamínicas que não falham muito a dar-me alento.
Aqui não faço escolhas, elas fazem-se por mim. Basta-me começar a mexer nesse meu precioso relicário, passe a redundância, e alguma coisa há-de surgir.
Hoje foi o Delicate Sound of Thunder, tão injustamente esquecido na minha memória floydiana, que querem?, as coisas não existem e não valem por si só, mas pelo que têm agregado, e com 19 anos se não fui feliz, pelo menos acreditava que o viria a ser.

Hoje não é um dia feliz.


Sabemos que após um dia vem sempre outro dia. Valha-nos isso. Mas hoje não é um dia feliz. É um dia de perda, um dia sem glória, um dia de pesar.
Poderíamos pedir a um qualquer pai que lhes perdoasse porque não sabem o que fazem. Mas de que nos serviria isso? A realidade é esta, ainda que à tangente. Por um se ganha, por um se perde. Mas nós perdemos porque metade dos que votaram o fizeram sem saberem o que faziam. Não todos, claro. Muitos votaram sabendo muito bem que estavam a defender os seus interesses, que não são, evidentemente, os da maioria.
Foi quebrada a "tradição" de não ser eleito um PR de direita. Que se quebre novamente, daqui a 5 anos, não o re-elegendo.
Quanto ao resto se falará depois. Hoje não. Hoje estou triste.
Hoje não é um dia feliz.
*Só por curiosidade (acabei de ouvir na TSF, por isso vim acrescentar esta notinha), a matemática diz que hoje é o dia mais deprimente do ano. Quem diria?

Domingo, 22, logo se vê


1976
RAMALHO EANES - 61,59
OTELO - 16,46
PINHEIRO DE AZEVEDO - 14,37
OCTÁVIO PATO - 7,59
ABSTENÇÃO - 24,53

1980
RAMALHO EANES - 56,44
SOARES CARNEIRO - 40,23
OTELO - 1,49
GALVÃO DE MELO - 0,84
PIRES VELOSO - 0,78
AIRES RODRIGUES - 0,22
ABSTENÇÃO - 15,61

1986 (1ª)
FREITAS DO AMARAL - 46,31
MÁRIO SOARES - 25,43
SALGADO ZENHA - 20,88
L. PINTASILGO - 7,38
ABSTENÇÃO - 24,62

1986 (2ª)
MÁRIO SOARES - 51,18
FREITAS DO AMARAL - 48,82
ABSTENÇÃO- 22,01

1991
MÁRIO SOARES - 70,35
BASÍLIO HORTA -14,16
CARLOS CARVALHAS - 12,92
MARQUES DA SILVA - 2,57
ABSTENÇÃO - 37,84

1996
JORGE SAMPAIO - 53,91
CAVACO SILVA - 46,09
ABSTENÇÃO - 33,71

2001
JORGE SAMPAIO - 55,55
FERREIRA DO AMARAL - 34,68
ANTÓNIO SIMÕES ABREU - 5,16
FERNANDO ROSAS - 3,00
GARCIA PEREIRA - 1,59
ABSTENÇÃO - 50,29

O meu avô


tem quase 90 anos. Ficou surdo há muito tempo, não completamente, mas precisa que lhe gritemos para
saber como vão as nossas vidas, se o emprego se mantém estável, se temos sido aumentadas, se a vida nos corre minimamente de feição. Mas mesmo surdo, cola o ouvido à televisão e sabe o nome de todos os ministros de qualquer Governo que nos vá (des)governando.
Já mal pode andar. O corpo acusa o cansaço de uma longa vida a trabalhar no campo, acusa a idade, algumas doenças. O meu pai, que está lá por uns dias para ir dando algum apoio, perguntou-lhe se quer companhia para ir votar, antes de ele próprio vir cá votar. O meu avô disse-lhe que não, que desta vez, a primeira desde que o podia fazer, não ia. Que o Cavaco já tinha ganho isto, que estava desanimado. O meu pai disse-lhe que nunca nada está ganho à partida e que são os votos num qualquer outro candidato que hão-de fragilizar esse sinistro homem de nome Cavaco.
O meu avô ouviu-o com atenção, pesou as palavras que ouviu e respondeu que se calhar o meu pai, seu filho, tinha razão. Que nunca tinha deixado de ir votar, não o faria já velho. E disse que sim, que vai votar.
Perguntei ao meu pai "Em quem?", "No Jerónimo, evidentemente"

Nos dias em que precisamos


de sair mais cedo é precisamente quando o trabalho não o permite. Assim, 15 minutos depois da minha hora, corri para o autocarro, depois para o barco, depois para outro autocarro e lá cheguei à reunião da escola. Atrasada, ainda me juntei a mais duas mães que também corriam subida acima.
À nossa espera tínhamos um contador de histórias. Dizia ele que entre os jogos de futebol, as telenovelas, o trânsito, as tarefas domésticas e o stress, devemos arranjar tempo para contar histórias aos nossos filhos. E ensinou-nos a fazê-lo. Contou uma história do Almada Negreiros e conseguiu prender os crescidos durante uma hora. Soube contar a história e fez-nos ouvir o mar.
No caminho de regresso perguntei à minha filha se gosta das histórias que lhe conto. Disse-me que sim, até das que invento no momento e que depois passo para o papel e ilustro.
Todas as noites lhe conto uma história. Todas. Antes de dormir, enquanto bebe o leite já aconchegada na cama quentinha, deito-me a seu lado e juntas lemos uma história. Não lha leio, simplesmente, conto-lha. Nunca foi preciso nenhum contador de histórias vir ensinar-me a fazê-lo ou falar-me da importância de o fazer. Conto-lhe histórias porque ambas gostamos, porque é o momento do sossego, da intimidade maior, do aconchego antes de adormecer e de me dizer que sou a melhor mãe do mundo. E juntas criamos, cada uma de nós, um universo de faz de conta, tantas vezes tão real.
Mas agradeço ao contador de histórias. Gostei de ouvir o mar.

No caminho para o trabalho nem me lembrei


disso. Só quando cheguei e abri a agenda. Dia 16 de Janeiro. Faz hoje um ano que morreu.
Nem um só dia passou sem que pensasse nele e poucos dias passaram sem que falasse dele. Foi um daqueles amigos incondicionais que poucos têm a sorte de encontrar. Com ele, no caixão levou escritas, numa folha branca, dobrada em 3, as palavras que era preciso sublinhar. Os dias que um ano tem não chegaram para me habituar à sua ausência. Nem todos os dias que a minha vida ainda terá, muitos ou poucos.
Nos últimos meses tem-me visitado em sonhos. Deixa-me perturbada e inquieta. Há quem me diga para aproveitar essa sua presença. Há quem me diga que ele está a tomar conta de mim. Há quem me diga que são os assuntos que ficaram por resolver.
Eu não o quero em sonhos. Queria tê-lo aqui todos os dias, os maus e os bons, como dantes. Faz-me tanta tanta falta. Viver amputada de um amigo não é fácil.
Suponho que seja assim com toda a gente. Pelo menos tenho excelentes memórias dos anos em que o tive. E tantas delas me têm feito sorrir que só lhe posso agradecer ter sido meu amigo.

Ontem o meu pai,


que se preparava para viajar para o Alentejo por uns dias para cuidar dos meus octagenários avós que já precisam e muito agradecem auxílio e companhia mais constante, dizia-me que no dia 22 cá virá para votar. Dizia ele que nem que estivesse nos Estados Unidos, fosse onde fosse, não deixaria de cá vir para votar. Que não se conforma com o perspectiva de termos um Presidente da República de direita. Curiosamente, eu também não.
Mas parece que há gente demais a quem isso não incomoda. Parece que o facto de ser o grande capital a apoiar Cavaco Silva não alerta esses 60% de portugueses para o facto de não se poder agradar a gregos e a troianos e que se Cavaco Silva é apoiado pelos mais ricos, não serão os mais pobres a usufruir da sua política.
Até uma das minhas colegas de escritório, cujo ordenado é vergonhosamente baixo, me diz que a sua escolha é Cavaco Silva. Pois, deve ser mais fácil ir atrás da maioria. Mas também não é assim tão difícil fazermos umas simples contas de cabeça. E Cavaco Silva, independentemente das contas que nos deixou para pagar, estas mesmas que ainda hoje pagamos, não é, não poderia ser nunca, por tudo aquilo que o forma que é uma cultura de economia não supra partidária mas supra humanista, não é, dizia, o homem que nos deixará "dormir descansados". Pelo contrário, com Cavaco Silva na Presidência teremos, mais do que nunca, de ficar alerta e de uma vez por todas nos deixarmos de tudo o que pretendem que seja o nosso ópio e tomar consciência da nossa realidade para com ela podermos legitimamente tomar posição.

De jornal na mão, acabada


que está de ler a crónica do Pedro Rolo Duarte, não posso deixar de pensar que, por vezes, este fulano lá tem umas certeiras.
Se das entrevistas de rua, em que se constata que muito pouca gente sabe a letra do hino nacional, se faz anedota nos noticiários; se oficialmente ninguém veio explicar a ninguém que havia bandeiras de apoio ao Europeu de Futebol mal colocadas nas varandas, que a disposição das cores não é aleatória; se há por aí tanta ignorância em relação à história de quem somos, que grande importância tem que uma empresa use o hino nacional para banda sonora da sua publicidade? Não é honroso, mas também não desonra, que desonrados já estamos nós há muito tempo.
Depois, levanto os olhos do jornal e conto as bandeiras norte americanas representadas em gorros, ténis, blusões e até numa mala. São muitas. Demasiadas. Portuguesas, nenhuma.
Qual é o grande drama? Se até estamos à beira de eleger um Presidente da República de direita, não seria engraçado o MacDonalds fazer um spot com um rap feito a partir da Mocidade Portuguesa ou do Angola é Nossa? Aí sim, poderíamos reclamar. Ou, se calhar, podíamos começar por escolher melhor em quem votar, que é agora com isso que nos devemos preocupar.

Entre o Hospital Particular


e o Canecão, café de referência para outra geração, onde trabalhava o meu tio, que nunca conheci, antes de fugir da guerra para França, há uma espécie de paragem fantasma. Há uns anos, nessa paragem entravam ou saíam dezenas de pessoas de cada autocarro. É a paragem da Lisnave.
Agora esses longos metros que separam as outras duas paragens são uma via rápida árida, de um lado um morro e uns velhos armazéns, do outro o que foi o estaleiro mais movimentado do país. Agora ninguém sobe nem desce nesse paragem.
Por vezes os mais apressados tocam a campaínha antes do tempo e o motorista lá faz o pisca para a direita e encosta. Abre a porta e olha resignado pelo retrovisor, sabendo de antemão que ninguém vai descer. São uns escassos segundos em que todos se espreitam tentando identificar o distraído.
Lembro-me de quando era pequena. Saía da natação a tempo de apanhar o autocarro das 5 e 20, o mesmo que os meus pais apanhavam à saída do trabalho. Eu sentava-me num dos bancos da frente para ver os meus pais entrarem e dava o lugar à minha mãe. O autocarro enchia na Lisnave. Dezenas de homens e algumas mulheres barulhentos, cansados, ainda jovens, frescos ainda da esperança de uma revolução que muito os desiludiu.
Às vezes ía à noite, com o meu pai, de carro, buscar a minha mãe, quando dobrava os turnos e saía às 10 e meia. Deitava-me no banco de trás do carro e acreditava que a minha mãe não me via, para depois a surpreender, já na Cova da Piedade. Mais tarde, quando já eu tinha carro, ía eu buscar a minha mãe e levava o nosso cachorrinho, que já conta 15 anos, o Paquito, um velho podengo alentejano, nascido em casa da minha madrinha. Conduzia com ele aninhado no meu colo e depois deixava-o passear junto aos elos da entrada.
Agora a Lisnave é uma memória, uma mágoa, é a coluna dorida do meu pai e a queimadura na perna da minha mãe. É a negra recordação das concentrações à porta e dos panos pregados na rede exigindo os salários em atraso. É a bicicleta do meu pai que pedalando poupava o dinheiro que fazia falta para o meu passe, para poder ir à escola.
É uma paragem onde se pára por engano.

Estas três mulheres que agora


fazem o trajecto de autocarro comigo, no final do dia, mudaram-se para aqui há pouco tempo. Treze anos antes também eu pensava que a Lisboa dos meus projectos, das minhas esperanças, não era este fim de mundo para onde vou todos os dias a que se acordou chamar de úteis.
Agora ouço-as queixarem-se de que aqui nem sequer há montras, que o tom cinzento deprime, que ainda bem que o Parque das Nações não está longe, ainda que tenham de apanhar um autocarro para lá chegar, e lembro-me dos meus primeiros meses aqui em que corria para o autocarro que me levava para junto dos Cais das Colinas, que ainda as tinha, e aí, olhando a outra margem, os cacilheiros, o bulício de quem corria como se soubesse para onde ou porquê, almoçava sem saborear a comida comprada num qualquer café na esquina mais próxima.
É sempre assim, as expectativas excedem sempre a realidade. Daqui a poucos meses, estas mulheres já não olham avidamente pela janela do autocarro a identificar o trajecto, olha, aqui é que é o Armazém 22? Poço do Bispo? Eu já tinha ouvido falar do nome, mas nem sabia que era em Lisboa. Beato? Para ali? Um dia destes passamos por lá.
Daqui a poucos meses este será apenas o caminho que as devolverá a casa, no final de cada dia, e o trajecto far-se-á enquanto discutem os acontecimentos mais aborrecidos com o chefe, lá no escritório.

A mulher esperava, na recepção,


que o Administrador a atendesse. Estávamos um nadinha atrasados, a manhã tinha sido complicada e estávamos a falhar os horários. Quis acalmá-la e ofereci-lhe o jornal para ler enquanto esperava. "Não tem antes uma revista?", perguntou-me. Só tinha a Visão da semana anterior. "Não tem nada um pouco menos aborrecido?" Ainda lhe disse que a Visão trazia uma espécie de avaliação do que foi o ano passado. "Ah, não, farta de aborrecimentos ando eu."
Ofereci-lhe um café, pois então.