Quando começa um novo ano fingimos


que acreditamos que vamos fazer uma série de mudanças nas nossas vidas. Que vamos poupar mais, que vamos ser mais atenciosos para os que amamos, que vamos deixar de fumar, que vamos ler pelo menos um livro por mês, que cortaremos o cabelo ou o bigode; não interessa, fingimos que acreditamos que somos capazes de mudar. E nos outros, com a boa vontade que o novo ano traz, quase conseguimos ver esse mesmo propósito, essa vontade, esse afinal fingimento em que todos queremos acreditar.
Os transportes, esses continuam nos mesmo horários, o rio tem o mesmo tom de cinza em dias de chuva e nós, quando muito, temos umas cuecas azuis novas para estrear na noite de 31 de Dezembro, a ver se a sorte chega. Já é alguma coisa.

Não sei se

pela cansada crise; se pela infância longínqua; se pelos sonhos que não se realizaram; se pela pouca paciência para a família de quem, afinal, se gosta tanto; se pela questão religiosa; se pela questão consumista; se pela tristeza dos outros; se pelas poucas perspectivas; se pelas pessoas que não podem estar perto; se pelos que morreram; se pelos que têm um natal ainda mais triste, o facto é que esta época, passada a euforia das compras, deixa em muitos uma tristeza que só parece dar vontade de adormecer e acordar apenas quando tudo tiver passado.

Para ali, à minha esquerda,

vejo uma série de cúpulas de igreja. Não sei bem quais são. Uma é a Sé, lembro-me de lá passar, há muitos anos, quando fui ao pé da Voz do Operário, não, passava-se era na Feira da Ladra, buscar os bilhetes para aquela viagem à Hungria e à antiga Checoslováquia. Tinha 20 anos, quase 21. Um dia perguntaram-me: como está o teu inglês? Estava bem, muito obrigada. Então, se quiseres, vais à Checoslováquia e à Hungria. Pagamos-te a viagem, a estadia, passas lá um mês e durante 4 dias serás a intérprete aqui do Presidente, o resto do tempo farás o que entenderes, segues no autocarro que já está alugado e viajas pelos dois países.
Quando cheguei a casa nesse dia, 10 dias antes da data da partida, já tinha ido tratar do passaporte e contei aos meus pais da lotaria que me tinha saído. Entre apreensão, surpresa e dificuldade em acreditarem, lá me deram o espaço para eu preparar a viagem, as dicas do que tinham ouvido dizer, os cuidados, e lá fui eu.
Agora vejo as cúpulas, iluminadas de noites frias, e sinto que esta é agora outra vida. Não sou só eu que sou uma outra mulher, não foram só os países que mudaram, é a minha vida, são as vidas que são outras.
Três fases, para este episódio. A primeira para quando tinha 13 anos e conheci na Festa do Avante os jovens húngaros que apaixonadamente me falaram do seu país, a fase do encanto pelos países de leste. A segunda para quando os visitei, para quando, de táxi, passei pelo jornal onde trabalhavam, para quando me sentei à beira do Danúbio, entre Buda e Peste e lamentei não o ver azul, como na valsa, e lamentei, numa das pouquíssimas vezes em que o fiz, estar sozinha. A terceira fase para esta mulher que sou agora, estranha de mim mesma, esforçando-me por ser outra, mais eu, esforçando-me por reconstruir o que nunca soube construir, uma felicidade simples que parece, a cada passo, visto da varanda da razão, ser-me dada de bandeja, mas que a minha emoção, os meus sentidos, não reconhecem como tal.

A cidade está cheia


de outdoors ostentando o busto dos candidatos às presidenciais.
Tento abstrair-me do que sei sobre cadaum deles e ver corações onde estão caras. Ainda assim a minha escolha não se altera. Não porque aposte no cavalo vencedor (nunca o fiz) mas porque me parece óbvio que é o único candidato seriamente honesto (passe a redundância), sem vaidades nem radicalismos, sem prepotência nem arrogância, com genuína vontade de viver num país de pessoas melhores.
Mas se quem vê caras não vê corações, fechemos os olhos e ouçamo-lo falar, acompanhemos-lhe o percurso, saibamos por que ideais se bate e como os adapta aos dias de hoje. Ouçamo-los a todos. Depois, os que estiverem para aí virados, rezem, que me parece que, a julgar pelas sondagens, isto não vai lá com os homens que temos.

Chama-se Sónia. Mal ponho


o primeiro pé no degrau, já tenho o DN em cima do balcão, estendo-lhe a moeda de 1 Euro. Enquanto fala com quatro pessoas ao mesmo tempo, incluindo eu própria, dá-me o troco, sem se enganar, desabafa o seu cansaço já às 8 da manhã, ri, trata toda a gente por tu e diz-me, até amanhã querida, bom dia de trabalho.
Como consegue?
Eu chego a horas ao trabalho, dou os bons dias ao colegas com quem me cruzo, ligo o PC, a rádio, abro a agenda, tiro a esferográfica da gaveta, atendo e faço os telefonemas que têm de ser despachados, mas antes das 10 horas não há conversa da treta para ninguém.
Tive um colega, está a fazer um ano que morreu, esse sacana que tanta falta me faz, que em tantos anos nunca aceitou este meu timing. Fazia questão de subir ao primeiro andar para me dar os bons dias, eu grunhia qualquer coisa e ficava a ouvi-lo resmungar pelas escadas enquanto descia que ia deixar de me vir cumprimentar pela manhã. Claro que nunca deixou de o fazer, até ir para o hospital. Agora visita-me em sonhos, como se me assombrasse, como se me fizesse pagar pelo meu mau feitio, mas visita-me também como se soubesse o carinho imenso que sentia por ele.
A vida é curta demais, e nós burros demais para aproveitar o pouco tempo que temos para dizer aos outros quem são para nós.

Há muitos anos

que faço este trajecto. Treze é o aziago número de anos que conto desde que pela primeira vez para aqui me dirigi. De transportes públicos, claro, que o dinheiro e a paciência não chegam para as absurdas filas para atravessar o rio.
São variadíssimas as disposições de quem comigo viaja. Até as minhas, que nem todos os dias acordamos virados para o mesmo lado, nem todos os dias o sol nos entra pela janela, nem todos os dias sabemos imediatamente que roupa vestiremos e não precisamos de ficar a olhar para o roupeiro de portas encancaradas a tentar descobrir que raio de cara temos hoje para saber o que vai bem com ela.
Mas por fim saímos de casa. E todos os dias é uma aventura. Uma aventura feita de conhecimento dos outros e de nós mesmos. Mais do que sociológico, um estudo emocional, passe o possível paradoxo.

Dava-me um certo jeito

ser supersticiosa e dizer que os projectos começados em Dezembro me dão sorte, mas além de isso não ser verdade, não sou supersticiosa.
De resto, apesar de começar a postar em Dezembro, criei o blog um bocadinho antes, não muito, só o suficiente para deixar amadurecer a ideia dentro de mim.
Em boa verdade não a deixei amadurecer muito, ainda não sei muito bem o que isto vai ser, tenho uma ténue linha traçada e depois logo se vê se sigo por ela ou se me deixo desviar, ao sabor do vento ou da maré, ou lá como é que dizem os que sabem escrever coisas bonitas.
Para já, começo, hoje que até é feriado. Depois logo se vê. Se alguém quiser seguir comigo nestas viagens de pobre pagas com um passe combinado, eu agradeço, que algumas caminhadas requerem companhia.