O tempo,

esse factor incontornável nas nossas vidas, molda-nos irremediavelmente. É no tempo que se constróem as amizades e é no tempo que se perdem.
Os amigos que fizémos em determinados momentos das nossas vidas podem ou não acompanhar-nos no resto do trajecto. Há os amigos que nos sabem respeitar, apesar das diferenças, que nos aceitam como somos. Há os que nos olham com atitude paternalista, desculpando-nos, com os seus próprios argumentos, os sonhos e os ideais. Há os que apostam em nós, naquilo que acabaremos por concretizar. Há os que acreditam que este amor que vivemos hoje é o maior de sempre, assim como a subsequente desilusão, e nessa medida nos apoiam.
É o tempo que se encarrega de os arrumar, na pirâmide de afectos que nos serve de base. É o tempo que vence os menos convictos. É o tempo que fortalece laços, que aperta nós, avaliando-nos perante situações de extremos. Tenho a sorte de ter bons amigos. Muito poucos, mas muito bons. Tenho a sorte de ter percebido quem pertencia a que degrau. Tenho a sorte de ter sempre espaço para mais alguém porque estes se ajeitam entre si. Tenho a sorte de encontrar nesses amigos um certo nível de incondicionalidade, de entrega, de desinteresse que me compensa de todas as perdas ou desilusões anteriores.
A esses amigos, que conhecem o meu riso e o meu choro, cuja empatia não falha, que me desculpam as falhas, que me valorizam os feitos, que me defendem ainda que eu não precise, que percebem nos meus silêncios os medos e as dúvidas que me assolam; a esses amigos que estarão sempre por mim, como sempre estiveram, eu ergo hoje —porque todos os dias são dias de sol e de rir e porque hoje há parabéns a distribuír— o meu copo, em silêncio, porque as melhores palavras não se dizem aqui.

E depois

há aquelas outras amizades, as que se construíram com bases verdadeiramente sólidas, as que ali estão para o que der e vier. As que nos deixam lamechas. As que nos misturam no rosto a vontade de chorar com a de rir.

Amiga
Ei, amiga, sabes como me dói essa tristeza no teu olhar, essas lágrimas contidas nos teus olhos grandes e brilhantes? Tu, minha guerreira, debaixo dessa armadura que julgam indestrutível, escondes um coração apertado, caminhas de mão dada com o inconformismo e com as incertezas que afinal, amiga, todos nós temos. Revoltas-te porque queres ser forte, porque queres encontrar o caminho para a feilicidade. Quero dizer-te que, ao contrário do que me dizes, não és tu que estás errada. Não é errado procurar o nosso caminho, não nos conformarmos, não nos calarmos. Mas a fraqueza vem, eu sei. A impotência perante determinadas situações da vida toma conta de nós, deixa-nos num vazio imenso, isola-nos da vida.
Mas não estás só, amiga.
Falaste-me hoje de empatia. Hoje olhei-te como uma mulher frágil, como a amiga com quem posso contar, como a irmã que nunca tive. E abracei-te sem braços, beijei-te a face sem lábios, passei as minhas mãos pelos teus cabelos sem nenhum gesto. Numa cumplicidade, numa empatia que apenas a verdadeira amizade conhece. Como sempre, num respeito pelo silêncio e numa disponibilidade e entrega total.
Hoje quiseste falar e eu ouvi-te. Ouvi-te da mesma forma que te oiço no silêncio, quando as palavras não querem sair, quando preferimos estar caladas e nos sentimos confortadas por alguém compreender que é assim que queremos estar.
O destino juntou-nos há bastantes anos, fez-nos crescer juntas, proporcionou-nos lágrimas e sorrisos, bons e maus momentos, fez-nos evoluir como pessoas, como mulheres, como seres humanos e lançou uma semente, uma semente pequenina que brotou da terra e fez nascer uma flor chamada amizade.
Chora, amiga, quando tiveres vontade, grita para que te possas ouvir, sussura quando estiveres triste, pois há sempre alguém que te ouve, mesmo que te julgues sozinha. Não tenhas medo de estar triste, pois amanhã o dia será melhor, há sempre uma luz ao fundo do túnel, há sempre uma razão que nos segura e nos deixa vestir de novo a armadura para mais uma batalha: a batalha da vida.
Que interessam as escolhas que fizemos, os erros que cometemos? O que nos garante que não seguiriamos caminhos ainda mais tortuosos, que nos fariam sofrer ainda mais? Vamos fechar o passado, amiga? Vamos fazer mais um esforço para sermos felizes?
Hoje queria apenas dizer-te que me deixas assim, sem saber que fazer, sem saber como ajudar-te, que me deixas o pensamento repleto de ti, mas com a certeza de que tu sabes que estou aqui, que estou à distância de um pensamento, de um olhar, de um abraço. E que como há tantos anos, caminho de mão dada contigo. Podes ter a certeza, Amiga, eu estou aqui, contigo.
Flor *

Há 19 anos

eramos, na escola secundária, um grupo de 4 amigas tão diferentes umas das outras quanto é possível imaginar. Ainda assim essa amizade era sólida. No dia 27 de Março de 1987 fizémos uma série de coisas juntas que nos levou a identificar este dia como um dia a assinalar, por todas. Criámos uma sigla, escolhemos um símbolo que todas usávamos no casaco ou na mala da escola e assim formalizámos o dia.
Passaram 19 anos e havia muitos que eu não me lembrava disto, embora nos tenhamos vindo a falar, cada vez mais espaçadamente, é certo.
Hoje também não me lembrei. Até que recebi uma sms com uma sigla não totalmente estranha, e um desejo de dia feliz, se possível com a felicidade algo inocente dos 16 anos. Isso não é possível, não vamos iludir-nos, mas foi bom saber que essa amizade, no tempo que foi o seu, serve ainda de alento a algumas de nós.
Estivesse eu mais disponível e tinha sido rasgado o sorriso de resposta a essa memória. Mas a vida não pára de nos pregar partidas estúpidas.

Não tenho pretensões


a ser o supra sumo da língua portuguesa. Dou erros de ortografia, esporádicos, creio, mas dou. Também acontece enganarmo-nos na digitação do texto. Acontece termos dúvidas. Acontece hesitarmos perante a grafia de certas palavras. Acontece termos de as visualizar para percebermos o erro. Tudo isto é admissível.
Mas depois há aqueles erros básicos, tão básicos que nos revoltam as entranhas, em palavras que fazem parte do nosso léxico desde que aprendemos a juntar letras. Para esses, repetidos até à exaustão, não encontro justificação crível.
É uma deformação muito minha, esta de corrigir erros de ortografia. De tal modo que me torno irritante para os outros e paranóica comigo mesma. Mas que mal há em sermos exigentes com o trabalho que se faz? Que mal há em aprendermos, em corrigirmos os nossos erros? Isso não é um sinal de inteligência?
Não posso aceitar serenamente que as televisões, adeptas fervorosas das notas de rodapé (essas que nos distraem das notícias, juntamente com informações climatéricas, horárias, de trânsito, de oscilações nas Bolsas, etc.), desenrolem perante o nosso olhar incrédulo erros atrás de erros, numa profusão tal de afrontas à língua de Camões, Pessoa, Sophia, Eugénio, Ary e de todos nós, que quase nos deixam na dúvida sobre a nossa sanidade mental, ainda por cima fazendo-nos correr o risco de tais "palavras novas" passarem a ser as legítimas substitutas daquelas que fizeram o seu percurso para serem o que são hoje.
Muitas vezes será pura desatenção. Outras vezes não se sabe mesmo como se escreve. Porque não se lê o suficiente, talvez. Mas não se lê porquê? Não deve ser por falta de tempo, porque nem que seja quinze minutos antes de dormir, conseguimos despachar vinte ou trinta páginas, de preferência de um livro bom. Também não deve ser por falta de dinheiro porque, à falta de tempo para os ir buscar à biblioteca lá do sítio, há sempre um amigo disposto a emprestar o livro que acabou de ler. Ou será puro desinteresse? Uma apatia e uma aceitação cega por tudo o que nos quiserem impingir como verdade aceitável?
Isto já para não falar do desconhecimento do significado das palavras que se ouvem e utilizam, e da falta de curiosidade em descobrir o que nos pretendem transmitir.
Agora podem reler e apontar-me os erros, é possível que haja alguns, até porque não tenho corrector ortográfico, mas o desabafo é um direito inalienável de que nenhuma revisão à Constituição nos pode privar. Digo eu.

Seria bom que as escolhas

que fazemos decorressem apenas daquilo que achamos que nos dará mais prazer ou realização pessoal ou profissional sem atendermos às inegáveis pressões morais, sociais ou económicas que lhes estão intrinsecamente ligadas.
Mas não é assim que acontece e eis-nos presas a convenções que não assinámos mas com que compactuamos. Enchemos a boca com liberdade de escolha, direitos adquiridos, emancipações mas cá nos têm, aparentemente submissas, ainda que nos revoltemos e mordamos por dentro.
No final, o resultado mantém-se invariável, salvo raras excepções por que pagamos elevado preço.
Todos nos deparamos, em determinado momento do percurso, com encruzilhadas onde se impõe tomarmos uma decisão. Qualquer ganho pressupõe uma perda, já se sabe. A contabilidade de cada um que permite avaliar perdas e danos resultará em balanços mais ou menos positivos. Todavia, arrisco-me a dizer que são as mulheres quem mais fichas põe sobre a mesa de jogo. Quando ganham, é uma vitória suada que traz um sabor amargo de preço muitíssimo alto a pagar. Quando perdem, porém, perdem duplamente: pela sua própria perda e pela perda vista pelos outros.
Uma mulher que ascendeu a um determinado lugar de poder no emprego, dormiu com o patrão. Um homem que conquista lugar similar é um vencedor.
Uma mulher que se divorcia é uma leviana e transforma-se, rapidamente, aos olhos dos outros, numa presa fácil. Um homem que se divorcia passa a ser um gajo disponível, interessante até, pronto a viver de novo a juventude perdida.
Uma mulher sozinha com filhos faz das tripas coração para ser mãe e pai, amiga e protectora, e não tem o direito de pedir um fim de semana para si própria. Um homem sozinho com filhos tem à sua disposição mãe, irmã, amigas, colegas de trabalho, que se desdobram em esforços para se mostrarem úteis e atenciosas.
Uma mulher que causa um acidente de viação é uma aselha. Um homem que causa acidente equivalente é um ás do volante que se distraiu.
Uma mulher que é despedida é uma incompetente. Um homem despedido é um incompreendido e falho de sorte.
Uma mulher nas forças armadas é uma exibicionista que só causará problemas na instituição. Um homem nas forças armadas é um herói a quem a farda assenta a matar.
E por aí fora. O que nos leva a concluir, ainda que injustamente generalizemos padrões, que são elas quem mais perde neste jogo de escolhas e apostas de que é feita a vida.
É portanto uma valente patranha que somos donos da nossa vida; somos, sim, os accionistas minoritários que têm de seguir as indicações de quem mais pode e manda, e convém que o façamos com um magnífico sorriso nos lábios, de cabelo e unhas arranjados e com roupinhas bonitas, a ver se nos desculpam qualquer coisinha.